Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

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Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 48 nº 2 - Mar. / Abr.  of 2015

CARTA AO EDITOR
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Page(s) 128 to 129



Pneumotórax catamenial

Autho(rs): Brainner Campos Barbosa1; Edson Marchiori2; Gláucia Maria Ribeiro Zanetti2; Jorge Luiz Barillo3

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Sr. Editor,

Mulher, 29 anos, previamente hígida, procurou o serviço de emergência com queixa de dispneia súbita. No exame físico o murmúrio vesicular estava abolido em todo o hemitórax direito. Na radiografia do tórax observou-se pneumotórax à direita (Figura 1) e a tomografia computadorizada (TC) de tórax não mostrou nenhuma outra alteração, além do pneumotórax identificado na radiografia. Realizada toracotomia com drenagem fechada. Como o pneumotórax coincidiu com o período menstrual, foi feita ultrassonografia pélvica que mostrou imagem compatível com endometrioma no ovário esquerdo. Em três meses, a paciente evoluiu com novo pneumotórax espontâneo à direita, sendo colocado um dreno tipo pig tail. Posteriormente foi realizada videotoracoscopia, com identificação e ressecção de focos endometrióticos (Figura 2), e colocação de tela de Marlex na parede torácica. Após três meses, a paciente permanece assintomática.


Figura 1. Radiografia do tórax em posteroanterior demonstrando pneumotórax à direita.


Figura 2. Videotoracoscopia demonstrando focos endometrióticos (setas) na superfície pleural.



A avaliação do tórax por métodos de imagem tem sido motivo de uma série de publicações recentes na literatura radiológica nacional(1-10). Endometriose torácica consiste na existência de tecido endometrial no parênquima pulmonar ou na cavidade pleural e manifesta-se clinicamente por hemoptise, pneumotórax ou hemotórax, com relação temporal com a menstruação(11-13). Frequentemente acomete mulheres em idade fértil, com pico de incidência entre a terceira e a quarta décadas de vida(14). Os implantes torácicos geralmente ocorrem na cavidade pleural e, menos comumente, no parênquima pulmonar(14).

A endometriose pleural é uma entidade de comportamento geralmente benigno, mais frequente à direita, possivelmente por defeitos congênitos na hemicúpula diafragmática direita e pelo fluxo contínuo de fluido da pelve para o quadrante superior direito do abdome(15). Tipicamente, os implantes endometrióticos no tórax cursam com sintomas periódicos (de um dia antes até os dois primeiros dias da menstruação)(16). A apresentação clínica depende do local acometido: nos casos de implantes na pleura, pode ocorrer pneumotórax ou hemotórax catamenial; no parênquima pulmonar, pode ocorrer hemoptise catamenial ou nódulos pulmonares assintomáticos. Histologicamente, é identificada a presença de tecido endometrial no pulmão e/ou pleura. A citologia revela células endometriais no líquido pleural, no aspirado de massas/nódulos pulmonares ou no lavado brônquico. Os exames de imagem compreendem, principalmente, a radiografia e a TC de tórax, que podem demonstrar pneumotórax, hidropneumotórax ou lesões nodulares pleurais. A ressonância magnética vem ganhando cada vez mais importância, pois além de diferenciar lesões parenquimatosas das pleurais, promove melhor resolução espacial e, se realizada no período menstrual, é capaz de identificar tecido glandular no local acometido (focos hiperintensos na ponderação T2)(17-19).

O tratamento possui dois pilares principais: o tratamento conservador, que é baseado na reposição de hormônios para prevenção de recorrência de pneumotórax e hemotórax, e o tratamento cirúrgico, que está indicado nos casos de falência do tratamento hormonal, de efeitos colaterais graves do tratamento, de recorrência após suspensão da terapêutica ou se a paciente desejar engravidar(20). Conclui-se, portanto, que o pneumotórax catamenial exige suspeição com base nas manifestações clínicas, coincidentes com o período menstrual, e que os exames de imagem podem confirmar o diagnóstico. O tratamento pode ser medicamentoso ou cirúrgico, devendo ser corretamente indicado para evitar recorrência das manifestações da doença.


REFERÊNCIAS

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7. Amoedo MK, Souza LVS, Souza AS, et al. Enfisema intersticial pulmonar: relato de caso e revisão da literatura. Radiol Bras. 2013;46:317-9.

8. Zanetti G, Nobre LF, Mançano AD, et al. Sinal do halo invertido com paredes nodulares causado por tuberculose pulmonar, confirmada por cultura do escarro. Radiol Bras. 2013;46(6):ix-x.

9. Koenigkam-Santos M, Paula WD, Gompelmann D, et al. Endobronchial valves in severe emphysematous patients: CT evaluation of lung fissures completeness, treatment radiological response and quantitative emphysema analysis. Radiol Bras. 2013;46:15-22.

10. Silva JLP. O trinômio vírus-droga-hospedeiro na caracterização tomográfica da infecção pulmonar por influenza A (H1N1) - uma visão clínico-radiológico-patológica. Radiol Bras. 2013;46(5):vii-ix.

11. Alifano M, Vénissac N, Mouroux J. Recurrent pneumothorax associated with thoracic endometriosis. Surg Endosc. 2000;14:680.

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13. Bagan P, Berna P, Assouad J, et al. Value of cancer antigen 125 for diagnosis of pleural endometriosis in females with recurrent pneumothorax. Eur Respir J. 2008;31:140-2.

14. Costa F, Matos F. Endometriose torácica. Rev Port Pneumol. 2008;XIV:427-35.

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20. Alifano M, Roth T, Broët SC, et al. Catamenial pneumothorax: a prospective study. Chest. 2003;124:1004-8.










1. Hospital Santa Teresa, Petrópolis, RJ, Brasil
2. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3. Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ, Brasil

Endereço para correspondência:
Dr. Brainner Campos Barbosa
Rua das Laranjeiras, 371, ap. 303, Edifício Marco Luiz, Laranjeiras
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 22240-004
E-mail: brainnerc@gmail.com
 
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